
oi,
tanto tempo?
tanta coisa?
tanto sentimento?
Aqui estou eu... renovada? depende do ponto de vista.
a saudade de quem eu não posso + ter continua aqui...
a alegria de viver continua aqui...
estou de volta, não sei por qto tempo, se será só hj ou se amanhã tem mais..
feliz ao lado de pessoas que me trasmitem felicidade..
perdida nos meus sonhos impossíveis..
mas quer saber é isso que eu gosto..
...sonhar.. sonhar.. sonhar..
bjo
fui
___________________________
L
E
I
A
Tempestade de AlmasClarice
Ah, se eu sei, não nascia, ah, se eu sei, não nascia.
A loucura é vizinha da mais cruel sensatez.
Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente.
O anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor não acabou, mas em lugar de, o ódio dos que amam.
A cadeira me é um objeto. Inútil enquanto a olho.
Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora. A criatividade é desencadeada por um germe e eu não tenho hoje esse
germe mas tenho incipiente a loucura que em si mesma é criação válida. Nada
mais tenho a ver com a validez das coisas.
Estou liberta ou perdida.Vou-lhes contar um segredo:
a vida é mortal.
Nós mantemos esse segredo em mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal.
O objeto cadeira sempre me interessou. Olho esta que é antiga, comprada num antiquário, e estilo império; não se poderia imaginar maior simplicidade de linhas, contrastando com o assento de feltro vermelho.
Amo os objetos à medida que eles não me amam.
Mas se não compreendo o que escrevo a culpa não é minha. Tenho que falar pois falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer.
As palavras já ditas me amordaçaram a boca.
O que é que uma pessoa diz à outra? Fora "como vai?" Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma
pessoa a si mesma, mas seria a salvação, embora a franqueza seja determinada
no nível consciente e o terror da franqueza vem da parte que tem no
vastíssimo inconsciente que me liga ao mundo e à criador inconsciência do mundo. Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta
tarde triste que uma palavra humana salvaria.
Abro bem os olhos, e não adianta: apenas vejo. Mas o segredo, este não vejo nem sinto. A eletrola está quebrada e não viver com música é trair a condição humana que é cercada de música. Aliás,
música é uma abstração do
pensamento, falo de Bach, de Vivaldi, de Haendel. Só posso escrever se
estiver livre, e livre de censura, senão sucumbo. Olho a cadeira estilo
império e dessa vez foi como se ela também me tivesse olhado e visto. O
futuro é meu enquanto eu viver. No futuro vai ter mais tempo de viver, e, de
cambulhada escrever. No futuro, se diz: se eu sei, eu não nascia. Marli de
Oliveira, eu não escrevo cartas pra você porque só sei ser íntima. Aliás eu
só sei em todas as circunstâncias ser íntima: por isso sou mais uma calada.
Tudo o que nunca se fez, far-se-á um dia?
O futuro da tecnologia ameaça
destruir tudo o que é humano no homem, mas a tecnologia não atinge a
loucura; e nela então o humano do homem se refugia. Vejo as flores na jarra:
são flores do campo, nascidas sem se plantar, são lindas e amarelas. Mas
minha cozinheira disse: mas que flores feias. Só porque é difícil
compreender e amar o que é espontâneo e franciscano. Entender o difícil não
é vantagem, mas amar o que é fácil de se amar é uma grande subida na escala
humana. Quantas mentiras sou obrigada a dar. Mas comigo mesma é que eu
queria não ser obrigada a mentir. Senão, o que me resta? A verdade é o
resíduo final de todas as coisas, e no meu inconsciente está a verdade que é
a mesma do mundo. A Lua é, como diria Paul Éluard, éclatante de silence.
Hoje não sei se vamos ter Lua visível pois já se torna tarde e não a vejo no
céu. Uma vez eu olhei de noite para o céu circunscrevendo-o com a cabeça
deitada para trás, e fiquei tonta de tantas estrelas que se vêem no campo,
pois, o céu do campo é limpo. Não há lógica, se se for pensar um pouco, na
ilogicidade perfeitamente equilibrada da natureza. Da natureza humana
também. O que seria do mundo, do cosmos, se o homem não existisse. Se eu
pudesse escrever sempre assim como estou escrevendo agora eu estaria em
plena tempestade de cérebro que significa brainstorm. Quem terá inventado a
cadeira? Alguém com amor por si mesmo. Inventou então um maior conforto para
o seu corpo. Depois os séculos se seguiram e nunca mais ninguém prestou
realmente atenção a uma cadeira, pois usá-la é apenas automático. É preciso
ter coragem para fazer um brainstorm: nunca se sabe o que pode vir a nos
assustar. O monstro sagrado morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era
sozinha. Bem sei que terei de parar, não por causa de falta de palavras, mas
porque essas coisas, e sobretudo as que eu só pensei e não escrevi, não se
usam publicar em jornais.